segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ema Thomas

paulovinheiro - 060110

Nem sei se era, acho que sim, mulher de vida simples, contudo livre.
Diz-se estrangeira, leve sotaque.
Vaidosa, nem tanto, mas era.
Dias vão, o que vem não se sabe, mas certo que vêm.
Quem a vê não diz, mas sofreu.
Poucas palavras, dela, dizem que viveu muito além daqui, em lugares distintos.
Quem sabe isso lhe fez o mistério.
Amigos, se tinha não sei, nunca se viu ou mesmo se ouviu dizer.
Ema sofria.
Naquela vila, distante, tão fria, estrangeiro se quer de passagem.
Ema ficou um, dois, três, onze anos a fio.
O quê queria ali? Porque veio de tão longe pra tão mais longe?
Sob o sol do sertão ela desfilava sua solidão silenciosa.
O que existia naquele coração?

As boas línguas diziam que sofrera muito... do que ninguém sabia dizer, mas como o bom exercício do diz-que-diz nos ensina: por mais que ouçamos nunca ouvimos tudo; das más línguas não sei, nada ouvi.

Ah! Ema.
Outros diziam que era má. Oh! Ema má.
Nesses brincares de malícia, em lugar que faltam assuntos, a gente se ouve nas praças em ecos que os de fora não podem entender.
Se algo incomodava era o silêncio dela.
Não, não era muda.
Não, não era surda.
Vivia livre de tudo e todos... não fazia favores e não precisava deles. Pagava a vista, nada pedia fiado, nem conversa, por certo.
Não ia à missa.
Ema sofria e ensinava.
Lá por muito tempo e muitos dizeres as pessoas se acomodaram e sofriam menos com sua presença.
Sua presença, ou ausência, ficou quase imperceptível... a cada dia mais ela entre todos sumia.

Um dia sumiu.
Para aquela cidade um sol se abriu: Ema Thomas.

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